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Fina capa

Sair naquele corredor em que uma luz está sempre piscando me fez perceber que a análise é o dinheiro mais bem gasto da minha vida.

Sentei na poltrona marrom e senti as ranhuras do couro, me apoiando na almofada vinho com flores pretas. Olhei o vaso de flores murchas na mesinha marrom que fica ao lado da poltrona, logo na minha frente. Tem um quadro de Jung ou Lacan e é cômico, até caricato, como a postura de minha analista é similar ao retrato.

Hoje falei de Conceição Evaristo, das dores que eu vejo ao meu redor e das minhas lembranças. Afirmei minha mediocridade e da facilidade de ver o mundo com os olhos do outro, a inveja da realidade alheia que eu não sei de verdade qual é, já que a pintura é feita pela aquarela das redes sociais. Falei das minhas escolhas e como queria aquela vida, essa mesmo, a que tem valor. Me despi daquela fina capa de seda que envolve a desvalorização que sinto pelo ser e estar. Chorei copiosamente tudo aquilo que segurei ao longo da semana enquanto ouvia que meu sentimento veio porque não sou alienada, só sinto demais a dor e tenho uma sensibilidade apurada. Eu tenho vergonha, rebati, da minha escrita e do meu vocabulário, minhas vírgulas fora do lugar, das minhas memórias e dessas frases desordenadas. Não sinto que eu seja sensível a ponto de escrever mas desci o degrau que separa aquele espaço, seguro e aconchegante, da paúra que sinto do mundo e fui arrebatada por um turbilhão de palavras. E vi. Eu enxerguei.

Eu vi aquela senhora do outro lado da rua, com o cabelo já branco até depois dos ombros preso com esmero em um rabo de cavalo baixo, vestido preto e branco listrado, a boca fina e tranquila, com seus olhinhos cobertos por um óculos enorme. Se preparava para atravessar a rua, mesmo que no meio dos carros e critiquei ela em meus pensamentos, já que nem 100m a separavam da faixa de pedestres.

E aí na minha frente para um daqueles carros antigos enormes, sedã, que parece uma banheira. Um aceno de dentro e vejo uma senhora muito bem vestida no banco da frente, com aqueles cabelos loiros que toda senhora branca classe média ostenta. Tinha franja e deve ter sido escovada naquele mesmo dia, já que a roupa era de festa, brilhante, e combinava com os brincos de pedra vermelha. Ela sorriu. A motorista tinha os cabelos curtos, três tons de loiro mais escuro que sua companheira, com joias douradas, uma pulseira fininha no pulso. E atrás um senhor, olhar resignado, a camisa azul e branca listrada, segurando no “puta merda”. Eles nem me viram, passei atrás do carro e queria bater no vidro e dizer “vocês estão lindos, tão elegantes” mas não sei como uma batida no vidro, na saída de garagem, seria recebida.

Continuei meu caminho até o metrô e ouvi o discurso de alguém atrás de mim, falando de religião e como se encaixava em todas, adorava todas e queria entender Deus. Achei bonito porque sempre me disseram que a vida não era para se debruçar no conhecimento sobre Deus e sim nos seus ensinamentos. Queria ir conhecer Deus junto com ela.

Peguei o Kindle logo que passei a catraca e me peguei novamente emocionada com as mulheres de Conceição Evaristo. Que delícia de leitura. Lembrei de Hemingway e da minha querida Elena Ferrante, como eles descrevem a vida e o quanto é distante e tão irmão da descrição de Conceição. A vida narrada nas palavras, histórias contadas e absorvidas, sentir no coração, lá no fundo, aquilo que faz com que essa vida tão diluída e desesperada tenha algum sentido.

Quando vou encontrar o meu? 

Terminei a sessão dizendo a frase que minha mãe sempre repetia “cuidado com aquilo que você deseja, porque você pode conseguir”. Acho que a vida não precisa ter sentido. Ela só precisa ser sentida.

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Fina capa

Um docinho de pessoa, até que se prove o contrário.

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