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A Tetralogia Napolitana de Elena Ferrante

Minha mãe era uma pessoa dos livros e histórias. Leu muitos do primeiro e acumulou muitas da segunda ao longo da vida, o que lhe rendeu uma capacidade única de contar suas aventuras com detalhes interessantes e tiradas inteligentíssimas. Sempre admirei a eficácia com que trazia os elementos da narrativa aos poucos, criava um suspense e sempre terminava com gargalhadas, ainda que ela tivesse pouquíssimo estudo pois parou de estudar na quarta série do fundamental. Muito dessas histórias vinha da vivência e da família, toda a “italianada” que desembarcou em meados de 1920 no Brasil com a esperança de uma vida melhor na América.

É essa “italianada” das histórias da minha mãe que eu identifiquei na escrita de Elena Ferrante, especialmente a partir da metade do primeiro livro, e que acabou me emocionando pelas memórias. Mas, aquém da minha impressão pessoal, ficou claro desde o início como aquela narrativa era verdadeira e crua, ainda que todos os livros sejam ficcionais.

O livro conta a história de duas amigas ao longo da vida – Elena, a Lenu (ou Lenuccia, se você quiser tratá-la com carinho) foi a amiga que conseguiu estudar a despeito da desaprovação da mãe e do local onde nasceu. Sua vizinha, Lina (chamada por Elena de Lila, a única que a chamava assim) sempre foi sua competição nos anos de escola mas por pressão do pai, que não a queria estudando, largou o curso e passou a trabalhar.

A história das duas é como de imãs com pólos iguais. Ao mesmo tempo, as personagens estão enraizadas uma com a outra: na infância era a escola e os livros. Na adolescência e vida adulta, o amor de um homem e o bairro em que cresceram. Na velhice, a ligação entre elas é apenas o ser – uma é parte da história da outra.

Em diversos momentos me irritei com cada uma delas em diferentes situações. Me vi fantasiando se eu seria a amiga genial de alguém ou se me sentira a vida inteira como a segunda colocada, “a esforçada”, em muitas passagens consegui identificar a afetação e a futilidade de alguns personagens e vi pessoas e situações que eu bem conhecia. Em outros pontos do livro, me emocionei e queria poder abraçar as protagonistas. Esse misto de sentimentos é característico dos quatro livros, ainda que a intensidade em que se fale sobre isso seja diferente em cada um, amadurecendo conforme a vida das protagonistas transcorre.

O livro corre em primeira pessoa, já que é uma das amigas que dá o fio da história, portanto há excessos de uma ou outra personagem em algum momento, mas a história compete às duas, portanto ambas são representadas. Há discussões sobre política, comunismo, história da Itália, assassinatos, a importância (e desprezo) do dialeto de cada local, os conflitos internos, como o bairro e as cidades são deteriorados com os anos e como a vida delas é marcada por seus parceiros (todos parvos, na minha opinião), seus aprendizados, carreiras, maternidade, família e conflitos pessoais, muitos resultando em violência.

Aliás, a violência é recorrente e banalizada propositalmente pela autora. O que Elena Ferrante traz é uma ficção baseada em pessoas reais, contando suas histórias como se fossem reais, como se cada uma daquelas personagens realmente existisse – e no contexto em que elas cresceram e estiveram ao longo da vida, a violência é frívola, uma resposta ao dissabor de um determinado momento. Não obstante, há toda uma tratativa no que diz respeito às emoções que elas compartilham ao longo da vida. Outro ponto importante é como elas enxergam as oportunidades e como existe um teor coeso na ambição delas, ainda meninas, em “sair” de onde estão, na ideia de que é preciso dinheiro para melhorar de vida, sempre com a questão do bairro e dos demais personagens orbitando entre elas.

A escrita misturando alguns fatos históricos com as memórias da protagonista e sua amiga me lembrou muito o “Travessuras da Menina Má“, de Mario Vargas Llosa. Em compensação, o fato de narrar vidas medianas, nada especiais, com traçados de dois caminhos distintos entrelaçados ao longo de toda a leitura, me lembrou um pouco o estilo de escrita que Ernest Hemingway adota em “O Sol Também Se Levanta“, especialmente no que refere-se suas descrições de Nápoles apenas como ambientação e não com detalhamento estético.

São histórias de vida que mostram como realizamos tanto e ainda assim somos pequenos diante do passar do tempo. As duas amigas trazem marcas distintas em seus corações mas elas conseguem se dar conta da plenitude de ter passado por tudo aquilo.

Minha lição favorita não foi relacionada com a amizade entre as duas e com sua mediocridade genial… Não. O que eu mais adorei nesses quatro livros é que elas foram muito mais do que se esperava delas e que suas vidas foram importantes. Eu poderia passar horas esmiuçando cada um dos personagens e chegando na mesma conclusão sobre as histórias de suas vidas – aventureiras ou não. ..

Elena Ferrante trouxe uma ficção que poderia ser a vida de qualquer um e isso é genial.


O sucesso dos livros de Elena Ferrante foi tanto que as protagonistas agora ganharam vida em adaptação para série realizada pela HBO. Ainda não tive a oportunidade de assistir pois não possuo o canal por enquanto, mas visualizando a foto fica muito claro que a caracterização das atrizes ficou sensacional!


As atrizes Elisa Gel Genio (à esquerda) e Ludovica Nasti, que interpretam respectivamente Elena Grego, a Lenu, e Raffaella Cerullo, a Lila, na série da HBO.

Créditos da foto: Eduardo Castaldo/HBO (Reprodução)


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A foto de destaque do post é da Pixabay para Pexels em CCO.

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A Tetralogia Napolitana de Elena Ferrante

Um docinho de pessoa, até que se prove o contrário.

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