Comprei um par de patins com meu primeiro salário no novo emprego. Poderia dizer isso com 15 anos, mas digo isso aos 33 e com um belo hematoma nas nádegas. Agora a gente cai e dói.
Associei a compra do patins a uma crise dos 30 e poucos, que eu vivo mais ou menos desde os 27. Acho que eu me dei conta de que não vou viver pra sempre cedo demais e tento compensar isso – tem momentos que vivendo uma nostalgia como se tivesse 16 anos e fosse uma aloprada pra sempre, em outros pensando que agora eu sou uma adulta funcional e preciso viver como tal. E de patins, eu precisava desesperada dos patins. Já levei pra terapia essa eterna fase meio nostálgica melancólica que não passa e ela falou que, talvez, eu não deixe passar. Imagino que ouvir as mesmas músicas de tempos em tempos, lembrar da minha mãe até com um pouco de desespero e ter diálogos mentais com pessoas que não fazem parte da minha vida há mais de 20 anos não ajude muito. Eu vivo minha vida agora e eu adoro ela, não é isso, é que eu sinto que deixei tudo lá meio mal acabado, que isso me deixou meio ordinária também e que se eu pudesse voltar resolveria tudo. Só que não tem volta, né?
Nesse “daqui pra frente” é que entram os patins, as atividades físicas, cursos online (que eu odeio), um novo trabalho e distrações momentâneas em jogos e redes sociais. De novo, não é uma reclamação, eu gosto bastante da vida que eu tenho e de tudo que eu construí. Se me perguntasse aos 15 onde estaria aos 33, eu provavelmente responderia algo padrão como “casada e com filhos” – que são duas coisas que eu quero, mas quero junto com shows e viagens e garrafas de vinho que virei a secar. A graça de ser adulto é que dá pra ter os dois – inclusive, dá pra ter as coisas que a gente se frustrou por não ter quando tinha 15 anos (alô coleção do Harry Potter e do Senhor dos Anéis). Lembrar de inusitadas caronas de guarda-chuva, de pontos de ônibus caóticos, de noites tocando violão e jogando truco também ajudam a me posicionar: eu não tenho mais vergonha de gostar do que eu gosto, de ser como eu sou e de ter escolhido 3 coisas para ser muito boa na vida e está de bom tamanho – a saber: meu trabalho, cozinhar e escrever. Não querer abraçar e ser boa em todas as coisas, me cobrar por isso e me frustrar foi um belo divisor de águas que só vem com a experiência, com a maturidade e, claro, com hormônios em seus devidos lugares.

Nesse ano também tem 18 anos que eu tenho vida online. E tudo começou num blog. E quando eu vi a blogagem coletiva da Mulher Vitrola e da Poly (que estou tratando aqui como grandes amigas, mas jamais conheci, só li) eu lembrei daquele primeiro blog: chamava “loucarol” e foi feito primeiro no blogger, depois no servidor do UOL (chamava zip net) e em algum momento teve outros servidores em que eu conseguia, veja, personalizar o layout. Nessa época minha mãe teve um blog nesse negócio do UOL também, às vezes quando bate uma saudade maior eu entrava lá, mas já salvei todos os textos. E esse blog durou alguns anos, com gifs estrelados e firulas e experimentos de HTML e tinha fundo preto e letra laranja porque sempre fui uma criminosa das cores. E quando eu não podia mais escrever o que queria porque uma pessoa horrível do meu convívio da época poderia ler, criei um blog super secreto, o Meu Veneno, que foi onde eu conheci pessoas incríveis e que, sem querer, deu minha profissão pra mim assim, “tó, é isso que você vai fazer”. Anos e anos de perrengue depois e, uau, eu fico bem feliz em ver onde eu cheguei. E é uma pena eu não tive um blog me acompanhando e que o Pijamão nasceu em algum ponto onde eu só precisava escrever – e foi abraçado pelo querido Jânio – e está aqui, como eu: meio ordinário, esquecido e empoeirado, mas cheio de vida que não acontece na tela. Meu blog vai andar de patins comigo, afinal.
Em tempos de excesso de informação, eu ainda leio blogs, muitos blogs na verdade, mas a maioria é “gringo”. E eu sei que também não dá pra voltar pra 2003 e a gente excluir todas as redes sociais e ficar apenas nos blogs – eu trabalho com essas redes e, no geral, eu gosto delas – mas dá sim para trazer esses textões reflexivos e falar de música e da vida, reclamar e até, veja bem, ter um blog pessoal e funcional como a adulta que finjo ser. E acho que a blogagem coletiva também é uma oportunidade de conhecer outros blogs, de assinar mais feeds, de comentar nas postagens e participar desse movimento gostoso de slow information, que nem sei se existe, mas se existe me abraça.
Acho que esse texto não tem conclusão. Hoje está um dia frio e cinza, a temperatura caindo e não vou andar de patins, vou me aconchegar na frente da TV vendo alguma série ou lendo. E me sinto bem com tudo isso. Que bom.
Ana Letícia
Volta e meia eu dou uma olhada nos sites pensando em comprar um patins. Lembro que não tenho dinheiro e fico só na vontade haha
Carol Mancini
hahahha. foi caro, mas agora preciso usar 😛